Algumas ideias discutidas no OSWC 2008

O encontro anual do Open Source World Conference 2008 foi na cidade de Málaga. Registou 8000 participantes, várias sessões técnicas e comerciais de produtos e soluções e meia dúzia de grandes conferências subordinadas a temas relacionados com a problemática do software livre na actualidade.

Não queria deixar de comentar algumas participações, começando pela intervenção de Tim O’Reilly na abertura do evento. Depois de referir que o “open source” não se aplicava somente ao software, mas a todo o saber que uma pessoa decide partilhar com outros – deu como exemplo as propostas registadas na revista “Make” da sua editora, avançou que, no futuro, a questão por-se-á cada vez mais em termos de liberdades de acesso e uso. Porém, com uma variante importante: passaremos da centralidade no “code reuse” ao “data reuse”. Dada a tendência para o software e hardware estarem algures na rede sem necessidade de instalação – casos já do Google Docs, do Zoho e de uma série de aplicações específicas que estão a migrar para versões “live” e “on demand”, além da tecnologia do “cloud computing“, deixa de fazer sentido focalizar a defesa da liberdade das pessoas na possibilidade de redistribuir e instalar o software. A grande luta dar-se-á ao nível dos conteúdos e dos serviços. Nessa área é que ainda há muito trabalho para fazer de forma a garantir a liberdade e acesso universal ao conhecimento.

Em tom de provocação, O’Reilly explicou na sua intervenção por que razão gosta dos “hackers” (não confundir com crackers”!). Segundo ele, os hackers são quem verdadeiramente inova. Aliás, numa conferência posterior, Marcelo Branco da Associação Software Livre do Brasil disse que nos últimos 14 anos não se tinha criado nada de inovador nas empresas comerciais. Esclareceu que as entidades mais inovadoras são as PME e os programadores independentes. Mesmo as grandes empresas que enveredaram por uma estratégia de participação no software livre – caso da IBM, Sun Microsystems, Novell, não conseguem o fervilhar de ideias que ocorre em empresas mais pequenas e ágeis.

Num outro debate, que teve por tema “Software livre e sustentabilidade”, foi mais ou menos consensual a ideia de que o software livre é sustentável. A divergência veio sobretudo da participação de Javier Romañach Cabrero, presidente do Foro de Vida Independente, que teimou em defender o software proprietário, porque lhe dava meios de aceder à informação que o software livre não permitia, sendo ele paraplégico. Achei muito estranha aquela crítica tão definitiva, mas depois apercebi-me de que a acessibilidade a que se referia não tinha só que ver com tecnologia adaptada a necessidades da pessoa com deficiência, mas estava muito associada à indisponibilidade para aprender. A dada altura, o próprio afirmou que não tinha que saber o que era fazer um “download”, nem o que eram versões. Ora todos sabemos que o uso de tecnologia implica uma formação mínima e que a sociedade da informação consolidada requer elevados níveis de literacia dos cidadãos. A acessibilidade é um tema vasto e com vários níveis de cumprimento. Podemos criar software nada acessível para a maioria da população, se condicionamos o seu uso ao pagamento de uma quantia em dinheiro. Isto é uma barreira à acessibilidade, bem como uma atitude obstinadamente fechada à aprendizagem. Além disso, verifiquei que na área do software livre existe desenvolvimento de produtos e tecnologia específicas. Numa simples pesquisa recuperei a OATS (Open Source Assistive Technology Software) que apresenta uma lista de produtos prontos a descarregar. É verdade que as soluções não vêm instaladas previamente, mas existem. O que é necessário é que a pessoa interessada procure ou recorra ao apoio de associações que dão a conhecer e ensinam a trabalhar com essas tecnologias.

A terminar, refiro o debate “Existe a neutralidade tecnológica?” que reuniu Javier de la Cueva, um advogado especialista em Direito digital, Marcelo Branco da Associação de Software Livre e Campus Party no Brasil, Juan Carlos Rodríguez Ibarra, ex-presidente da Junta de Extremadura, Francis Pisani, jornalista do El PaísEl Mundo.

Defenderam que a tecnologia não deve ser neutra, porque os governos e poderes locais têm a obrigação de avançar com políticas públicas, que reflectem necessariamente opções. Escolher a solução software livre para serviços públicos e comunidades é uma boa aposta, porque evita que os organismos fiquem prisioneiros de empresas e estimula o desenvolvimento e a inovação do tecido social e empresarial regional. A neutralidade nesta matéria significa inacção e indiferença.

Portanto, foi consensual que ao nível da tecnologia deve haver uma escolha clara e assumida pelos poderes políticos. Contudo, o receio de todos está na rede. Se a tecnologia nunca é neutra, a rede deve sê-lo sob pena de desaparecer a liberdade de expressão e o espaço para todos, que tem caracterizado a Internet. Marcelo Branco mencionou que algumas leis podem pôr em perigo esse estado de coisas. Referiu a Convenção de Budapeste pós 11 de Setembro, também conhecida por Convenção do Cibercrime, que limita direitos, liberdades e garantias universais para combater o terrorismo.

Casos de má convivência entre os direitos dos cidadãos e os interesses de empresas vêem-se diariamente materializados nos meios de comunicação social. Veja-se, por exemplo, a tentativas de aplicar uma lei de Propriedade Intelectual desajustada à realidade da Internet que criminaliza todo aquele que descarrega música ou filmes que a tecnologia lhe permite; considere-se a pressão junto de fornecedores de serviços para que policiem os seus clientes e forneçam os logs (ficheiros de acesso com dados das pessoas que usaram o serviço e quando); antecipe-se a possibilidade de se vir a acusar programadores de crime penal por escreverem código reverso, ou seja, por compatibilizarem software livre com software proprietário, tentando perceber o que está na caixa negra do software comercial. Um exemplo paradigmático é o OpenOffice. A aplicação Writer, correspondente ao Word do Office, lê e grava ficheiros de extensão.doc, mas a equipa que o fez nunca teve acesso ao código da aplicação da Microsoft. Por tentativa-erro e programação e reprogramação, conseguiu simular o Word. Esta actividade poderá vir a ser considerada crime e todo o espaço de desenvolvimento e inovação do software livre estará comprometido.

Foi para estes cenários que os intervenientes quiseram chamar a atenção, acreditando que é necessária cada vez mais formação das pessoas para protegerem as suas liberdades. Apesar de se prever o convívio entre software livre e comercial, ficou claro que o software livre está mais de acordo com o novo modelo social da era pós-Internet, onde a ideia de comunidade e os direitos de expressão são reais.

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A portabilidade levada ao extremo

O conceito de portabilidade sempre foi uma preocupação da indústria e serviços, basta pensar na restauração e no sucesso dos Take away, ou no sector automóvel e na luta pela autonomia do veículo. Na área do hardware e do software verifica-se a mesma tendência: computadores mais leves e finos (veja-se o recente ibooK air de Apple), dispositivos de armazenamento leves, pequenos e de grande capacidade.

Aproveitando a actual capacidade de armazenamento da pen-drive, iPod, discos duros amovíveis, Portable APPS avançou com um produto interessante. Uma suite, conjunto de programas, que são armazenados num desses dispositivos e vão com o seu dono para todo o lado. Todos os programas são software livre com licença GPL. A pessoa não necessita de utilizar aplicações alheias, usa as suas e com a configuração que decidiu – caso do gestor de correio, dos navegador e dos favoritos, etc.

É de facto uma solução inteligente que tira partido das possibilidades tecnológicas e vai ao encontro das necessidades de muitas pessoas – comodidade, autonomia e independência. Uma vantagem inegável é o funcionamento em qualquer computador público a partir do dispositivo sem necessidade de instalação e sem correr o risco de deixar passwords ou informação pessoal.

O funcionamento é simples: existe uma plataforma que é gravada no dispositivo e sobre essa são gravados os programas sugeridos (suite feita) ou elabora-se o pacote de forma personalizada.

As áreas dos programas disponíveis são: acessibilidade, desenvolvimento, jogos, gráficos/ imagens, Internet, música/ vídeo, Office, OS, utilitários. A aplicação mais usada é o navegador Mozilla Firefox.

O processo de instalação é muito simples.

Creio que a tendência futura já está bem delineada: programas portáteis, suites personalizadas, processo de instalação de programas inexistente, sobretudo em aplicações mais usadas. Isto graças a esta solução de aplicações portáteis, mas também ao aparecimento de programas que se utilizam quando estamos conectados, mas que não se instalam localmente (ej. Google Docs).

Open Source e crescimento sustentado

Uma figura marcante na paisagem actual da Internet e evolução tecnológica é Tim O’Reilly.

Fundador da O’Reilly Media, apoiante do software livre e do movimento Open Source, este irlandês é apontado como o criador do termo Web 2.0.

Tim é um observador atento da evolução da indústria do software e de empresas que cresceram à sombra do software livre.

Para este empresário, o movimento de Open Source é uma oportunidade de ouro para as empresas. O sinal mais elucidativo dessa vitalidade é o uso massivo na Internet de Linux ou baseados em Open Source. Ao nível dos sistemas operativos, o Windows predomina, mas o HTML, o XML, os servidores Apache, as bases de dados MySQL, as linguagens Php, Perl, Python, os navegadores, os serviços 2.0, são fruto de uma tecnologia aberta e baseada em normas. Ou seja, os desenvolvimentos recentes da Internet têm na sua maioria a marca do Open Source. Além disso, a plataforma do futuro não terá por base os PC, mas a Internet, veja-se a oferta de serviços de edição de texto ou imagem, a folha de cálculo, etc. sem que seja necessário instalar qualquer programa no PC.

Porém, para que uma empresa construa um futuro a longo prazo e verdadeiramente sustentável, é forçoso que três condições se cumpram:

Uso de normas e procura de interoperabilidade. O isolamento de um produto ou serviço não sobrevive, porque o mercado exige que haja integração e comunicação de uns com os outros.

A ideia dos críticos que acusam o Open Source de destruir as empresas e de não respeitar a propriedade intelectual é falsa. E Tim expõe as razões: o software não é um fim em si mesmo e constitui apenas uma parte do processo.

Na verdade, segundo este autor, o Open Source dinamiza o mercado, serve o interesse dos consumidores e cria novas oportunidades de negócio, porque ramifica o mercado, reparte essas mesmas oportunidades por empresas mais pequenas e inovadoras.

Ao contrário, a lógica das normas proprietárias, das patentes e do proteccionismo, cria desequilíbrios, desregula o mercado e origina os monopólios.

Arquitectura de participação. Tim relembra que nos primórdios da informática e da Internet, no meio universitário, a filosofia predominante era a da partilha. Além disso, a base da Internet são protocolos abertos, universais. O movimento Open Source não fez mais que ir beber a essas origens de partilha e comunicação. Uma empresa viável é aquela que compreende e valoriza a participação e a dinâmica criada através dela.

Adaptação do software ao utilizador final. Cada vez mais, os produtos e serviços oferecidos não são um resultado, mas um processo, em que cada actor acrescenta valor, incluso os utilizadores.

Por várias vezes, em conferências e livros, Tim O’Reilly menciona os casos bem sucedidos de Google, Amazon, eBay ou Yahoo. Apesar de empresas comerciais, usam base e filosofia de Open Source. A seu segredo foi dar espaço à contribuição do utilizador para criar os efeitos benéficos da rede e apostar na integração, compatibilidade e interoperabilidade entre sistemas e aplicações.

Este autor é da opinião de que Google poderia perfeitamente revelar o famoso algoritmo do PageRank e que Amazon poderia disponibilizar o One Clic, mas que resquícios da lógica comercial os impedem de o fazer.