Open Source e crescimento sustentado

Uma figura marcante na paisagem actual da Internet e evolução tecnológica é Tim O’Reilly.

Fundador da O’Reilly Media, apoiante do software livre e do movimento Open Source, este irlandês é apontado como o criador do termo Web 2.0.

Tim é um observador atento da evolução da indústria do software e de empresas que cresceram à sombra do software livre.

Para este empresário, o movimento de Open Source é uma oportunidade de ouro para as empresas. O sinal mais elucidativo dessa vitalidade é o uso massivo na Internet de Linux ou baseados em Open Source. Ao nível dos sistemas operativos, o Windows predomina, mas o HTML, o XML, os servidores Apache, as bases de dados MySQL, as linguagens Php, Perl, Python, os navegadores, os serviços 2.0, são fruto de uma tecnologia aberta e baseada em normas. Ou seja, os desenvolvimentos recentes da Internet têm na sua maioria a marca do Open Source. Além disso, a plataforma do futuro não terá por base os PC, mas a Internet, veja-se a oferta de serviços de edição de texto ou imagem, a folha de cálculo, etc. sem que seja necessário instalar qualquer programa no PC.

Porém, para que uma empresa construa um futuro a longo prazo e verdadeiramente sustentável, é forçoso que três condições se cumpram:

Uso de normas e procura de interoperabilidade. O isolamento de um produto ou serviço não sobrevive, porque o mercado exige que haja integração e comunicação de uns com os outros.

A ideia dos críticos que acusam o Open Source de destruir as empresas e de não respeitar a propriedade intelectual é falsa. E Tim expõe as razões: o software não é um fim em si mesmo e constitui apenas uma parte do processo.

Na verdade, segundo este autor, o Open Source dinamiza o mercado, serve o interesse dos consumidores e cria novas oportunidades de negócio, porque ramifica o mercado, reparte essas mesmas oportunidades por empresas mais pequenas e inovadoras.

Ao contrário, a lógica das normas proprietárias, das patentes e do proteccionismo, cria desequilíbrios, desregula o mercado e origina os monopólios.

Arquitectura de participação. Tim relembra que nos primórdios da informática e da Internet, no meio universitário, a filosofia predominante era a da partilha. Além disso, a base da Internet são protocolos abertos, universais. O movimento Open Source não fez mais que ir beber a essas origens de partilha e comunicação. Uma empresa viável é aquela que compreende e valoriza a participação e a dinâmica criada através dela.

Adaptação do software ao utilizador final. Cada vez mais, os produtos e serviços oferecidos não são um resultado, mas um processo, em que cada actor acrescenta valor, incluso os utilizadores.

Por várias vezes, em conferências e livros, Tim O’Reilly menciona os casos bem sucedidos de Google, Amazon, eBay ou Yahoo. Apesar de empresas comerciais, usam base e filosofia de Open Source. A seu segredo foi dar espaço à contribuição do utilizador para criar os efeitos benéficos da rede e apostar na integração, compatibilidade e interoperabilidade entre sistemas e aplicações.

Este autor é da opinião de que Google poderia perfeitamente revelar o famoso algoritmo do PageRank e que Amazon poderia disponibilizar o One Clic, mas que resquícios da lógica comercial os impedem de o fazer.

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Lessig, monopólios e corrupção

Serve este post para estrear uma rubrica que me parece fundamental na actualidade que vivemos – conhecer personalidades que moldam e representam correntes importantes da Internet, da informação e dos caminhos futuros. Os protagonistas da Rede são os anónimos, mas é certo que o trabalho conceptual e os princípios de muitas realidades foram fruto de contributos e iniciativas de indivíduos que se destacaram.

Lawrence LessigLawrence Lessig é um desses artífices que dedicou energia e esforço para um sistema mais justo e um acesso mais livre e global. Lessig é professor de Direito em Stanford e fundador da Creative Commons. Durante dez anos deu conferências em todo o mundo sobre o uso abusivo do direito de cópia e publicou quatro livros, onde expõe as suas ideias, casos reais e as consequências de uma demissão dos organismos reguladores e dos cidadãos em matéria de propriedade intelectual.

Desde Junho de 2007, Lessig retirou-se da cena e explicou que não abandonava o projecto, simplesmente que ia dedicar-se mais à luta contra a corrupção. Está convencido que o cerne da questão está nos políticos que se deixam subornar e embarcam em decisões que ferem o interesse público. Isso é particularmente verdade nos EUA, onde a protecção dos indivíduos face a interesses comerciais é mais fraca que na Europa. Durante todo este tempo, Lessig tentou sensibilizar o Congresso norte-americano, onde goza de alguma influência junto dos senadores conservadores, apesar de assumir uma postura liberal.

Free software, Free culture, Free society, Net neutrality

Estas quatro expressões povoam os livros de Lessig e sintetizam o seu pensamento. A centralidade no software é perfeitamente justificada, porque é a base da construção da sociedade da informação. Criar constrangimentos legais a esse nível inviabiliza um processo de globalização mais equilibrado, além de retirar ou diminuir a capacidade e a iniciativa de trocar, inovar, aperfeiçoar algo que já exista.

A neutralidade da net significa que não há cargas políticas, interesses económicos, estratégias monopolistas por trás de autênticos bunkers legais. Há países que compreenderam muito rapidamente o poder que o software livre lhes permitia – o Brasil, por exemplo. O ministro da Cultura, Gilberto Gil, explicou que a adopção de Linux não foi por questões economicistas, antes porque é uma estratégia de desenvolvimento do próprio país.

Livros de Lessig:

Code and other laws of cyberspace (2000). Título em que refere a possibilidade de o controlo exercido no mundo real contaminar a Internet. É um alerta para os optimistas que acreditam que não é possível controlo algum. Lessig apela a uma atitude mais activa e consciente de todos.

The future of ideas (2001). Trata-se de um elogio à energia do colectivo que, uma vez conectada, se revela criativa e inovadora.

Free culture (2004). Inteiramente dedicado à propriedade intelectual e às fronteiras entre o copyright e alternativas. O tradicional copyright é anti-natural no ambiente digital.

Code version 2.0 (2006). Regresso ao tema do possível controlo da Internet. Para Lessig, o comércio é o motor dessa pressão e existem meios para controlar muito mais que aquilo que é possível fazer no meio real. Defende um modelo de arquitectura da Internet em que exista neutralidade, liberdade e possibilidade de escolha.