Jornalismo de intervenção

Jornalismo cidadão (pt), Periodismo ciudadano (es) e Citizen journalism (en) são as expressões usadas para referir um fenómeno, que não é novo, mas que ganhou contornos novos na Internet.

Refere-se à cobertura jornalística feita por cidadãos, portanto, amadores, que fogem aos ditames das agendas políticas e dos media, e que livremente elegem os temas que os preocupam e lhes interessam.

Acontece, muitas vezes, que estes amadores são especialistas numa área ou têm-na como hobby, o que os leva a serem mais exaustivos e pertinentes nas abordagens que o jornalista-repórter generalista.

Este movimento também está marcado pelo acaso, fortuito, no tipo de situação em que um cidadão se encontra casualmente no local e regista em primeira mão os factos, antecipando-se ao plantel jornalístico profissional.

Como movimento organizado, de pessoas de bem que desejam mudar a ordem actual das coisas, temos o testemunho de alguns jornais ao serviço de uma causa.

Activismo, participação, independência, fontes livres, social news, atenção ao local, são alguns dos temas intimamente ligados a este tipo de jornalismo que não deixa de suscitar críticas e ter opositores acérrimos.

Modalidades de implementação

Existem vários níveis de participação do cidadão.

1. Participação em media convencionais através de: comentários, blogs de colunistas, envio de fotos e vídeos, notícias locais. A liberdade do cidadão é reduzida e controlada. Representa frequentemente a resposta dos media profissionais à pressão deste fenómeno. Exs.:

CNN iReports, um espaço em que o cidadão pode participar na proposta e elaboração de notícias. Uma pop-up à entrada alerta para o facto de haver notícias que não editadas nem verificadas antes de publicação, ao contrário de outras que já possuem o rótulo CNN iReport.

CBS Eye Mobile aceita envio de fotos e vídeos das pessoas por e-mail.

Eu Repórter da Sic que desafia os leitores a enviarem histórias, fotos e vídeos.

2. Participação activa e exclusiva de cidadãos nas notícias publicadas. São media independentes e 100% geridos e dinamizados por cidadãos.

Em forma de website ou blog:

Agoravox, media francês. É de imediato perceptível o dinamismo, a escolha de temas e a forma de apelo à acção em alguns títulos. Trata-se de um jornalismo de irreverência e de questionamento.

You scoop it, website aberto à participação de qualquer cidadão, que pode criar novas notícias ou comentar outras. Estão estabelecidas as regras de aceitação de conteúdos e a obrigatoriedade de referir as fontes.

Bottup foi criado em formato de rede social constituída por leitores, jornalistas amadores que colaboram e um pequeno grupo de jornalistas profissionais que fazem a revisão e publicação das notícias enviadas.

Em formato de wiki:

Wikinews em várias línguas e com a filosofia da colaboração bem patente.

3. Participação activa e independente, mas a título pessoal, usando blog, fotoblog, podcasting ou vídeo.

Youtube Direct ao serviço dos jornalistas cidadãos

Hoje, é notícia o lançamento do serviço Youtube Direct que se presta a publicar vídeos feitos por cidadãos. A temática aponta, pelo menos numa primeira fase, para algum sensacionalismo: celebridades, desastres, escândalos e situações embaraçosas com políticos.

A plataforma pretende servir de base à “encomenda” de vídeos por parte dos media junto dos utilizadores do Youtube, mas também serve para contactar o cidadão – autor do vídeo, que interessa a determinado media.

Existem ainda outras aplicações para ONG e empresas na área da promoção e marketing.

Fonte de qualidade

Acerca deste tema, recomendo Periodismo Ciudadano que dá conta de casos, iniciativas, projectos, tendências nesta área. Também tem recursos seleccionados para o jornalista em formação, para o professor que queira abordar o tema, bem como ferramentas para criar website de jornalismo cidadão.

Anúncios

As atenções voltadas para os data center

O data center é uma infra-estrutura composta pelos sistemas computacionais e serviços associados, como o de comunicações (e-mail, acesso à Internet), armazenamento, segurança e backup de dados. O seu bom funcionamento depende do uso de normas e protocolos como o IP, mas também de uma série de condições ambientais e requisitos apertados de segurança e monitorização da totalidade do sistema. O conceito vem desde os primeiros grandes computadores – mainframes, que requeriam condições de funcionamento e manutenção tal como nos data center actuais, embora hoje essa exigência decorra mais da complexidade e da permanente solicitação a que as redes e infraestruturas estão sujeitas. Um data center possui geralmente:

  • sistemas de redundância e de backup para evitar perdas, quando falha a electricidade por exemplo;
  • conexões alternativas em momentos de grande tráfego ou de ameaças e ataques;
  • controlo das condições ambientais (ar condicionado para controlar a humidade e a temperatura, evitando as condensações e a electricidade estática, sistemas de detecção, prevenção e combate ao fogo) e
  • dispositivos de segurança como a VPN gateway, firewalls, sistema de detecção de intrusos, backup encriptados entre data centers.

Actualidade do tema “Data centers”

Uma série de factores têm lançado os data centers para a primeira linha, entre os quais o avanço do cloud computing (ao nível da infraestrutura – IssS Infrastructure as a Service), o cenário de crise, o aquecimento global e a necessidade de reduzir custos, tanto económicos como ambientais, e de melhorar a eficiência a todos os níveis – espaço, energia, segurança, escalabilidade dos sistemas. Outsourcing, auditorias de eficiência, sistemas à medida das necessidades a cada momento, são cada vez mais as palavras que orientam as decisões nas empresas em matéria de infraestrutura de informação. Em medida superior, esse interesse é manifesto nas empresas que movem meios para oferecer serviços com excelente qualidade. Nessa medida, não são raras as fusões e alianças entre empresas para conseguir cobrir o largo espectro de necessidades que um data center implica.

Empresas no mercado dos data centers

Só empresas de grande porte têm capacidade para avançar com modelos de negócio que abarcam todo o ciclo de vida do data center. Cisco, HP, IBM, anunciam serviços de data center que incluem: instalação e manutenção do hardware, segurança da rede de ataques e acessos, backup, actualização imediata do software, migração.

A HP, que presta o serviço na modalidade cloud computing com o SAP, orienta-se primeiramente para as PME, mas antevê o interesse deste tipo de produto em empresas petrolíferas e de animação.

Porém, um exemplo bastante interessante e com a informação organizada e abundante nesta área tem sido o da Sun Microsystems. Não foi por acaso que o gigante azul namorou a Sun. Porém, a Oracle levou a melhor…

A característica comum a todos os serviços da Sun está na preocupação com a eficiência, a redução dos custos e o respeito ambiental. Assentam a estratégia na virtualização, na optimização da estrutura actual, após auditoria, quer da capacidade de processamento, quer da redução da factura energética. A criação do OpenEco.org é prova dessa política estratégica.

Esta empresa propõe-se combater os números negros das infraestruturas de IT que são acusadas em relatório da EPA de ter duplicado o consumo energético entre 2000 e 2006, e ainda de possuírem sistemas de arrefecimento que representam 50% de toda a energia.

A promessa aponta para um aumento da capacidade de processamento de 456% e de armazenamento de 244%, com reduções de 60% em gastos energéticos.

Apesar de ter sido mencionada a iniciativa da Sun, não faltam projectos e listas de recomendações na área do Green IT, e mesmo empresas como a AISO, da área do alojamento em cloud, que é considerada uma das 50 mais verdes pelo facto de utilizar só energia limpa.

Os conselhos vão por duas vias: evitar o desperdício e melhorar a performance da estrutura já existente e recorrer a técnicas e mecanismos mais ecológicos e capazes. Alguns exemplos: medir a eficiência, melhorar o sistema de arrefecimento, virtualizar o armazenamento, substituir servidores antigos e pouco eficientes, usar energias renováveis.

Tendências que se desenham

Será inevitável a evolução para data center mais ecológicos, mas também mais seguros e em formato cloud computing.

Não há data centers invioláveis, mas é certo que os seus sistemas de segurança, redundância, monitorização, são superiores aos de qualquer empresa. Estão localizados em zonas anti-sísmicas, alguns deles estão sedeados em antigos bunkers, pedreiras. O da Microfil em Esmoriz foi considerado muito seguro e só assim foi possível ser escolhido para guardar documentos da NATO. Neste negócio, não se regateia em matéria de sistemas de segurança activos, sejam eles activos ou passivos.

O calcanhar de Aquiles é mesmo o facto de constituírem alvos preferenciais de ataques, por serem a “sede de dados” de muitas empresas. O caso recente do apagão do data center do Google na Europa é prova disso ou a ameaça crescente de worms sofisticados e agressivos, com efeitos virais impressionantes, como se imagina que seja o Conflikter.

Sem deixar de ter presente os riscos inerentes aos data centers – todos os ovos na cesta à guarda de terceiros, é razoável acreditar que a evolução nesse sentido dar-se-á, até pelas razões já apontadas do porquê dos data center na moda.

A elevada complexidade e exigência dos sistemas, o cenário de mudança rápida em que as empresas operam, a maior exigência no controlo dos gastos, obrigam a:

  • manutenção quase permanente, incomportável na maioria das empresas, porque não há dinheiro nem equipa para tal,
  • investimentos avultados num dado momento em que se prevêem necessidades a médio prazo que poderão não se verificar, por exemplo a expansão ou a internacionalização ficam adiadas por 2 anos, tempos suficiente para votar ao fracasso todo o investimento em TI realizado.

Subscrever um serviço que dá todas as garantias e em termos de gastos é um custo mensal fixo, torna-se muito atraente.

É claro que as empresas que entram neste negócio estão interessadas em tornar os data center boa opção aos olhos dos decisores, porque os investimentos na criação de uma infraestrutura destas é tão brutal que precisam de ter muitos e bons clientes e taxa de uso dos data center bem próximas do óptimo. A lógica da escala parece interessar ambos os intervenientes, empresas e fornecedores dos serviços.

Soluções de vanguarda

Começou por se verificar um cuidado crescente na escolha dos sítios para os data center – zonas com fonte energética barata e abundante e afastadas de pessoas, que potenciam os riscos. Mas isso já não basta, por isso as alternativas têm de ser mais criativas e vanguardistas.

Além da virtualização e do uso de energias limpas, equaciona-se cada vez mais a localização dos data centers em sítios à partida improváveis – no alto mar. A patente é do Google e a ideia é aproveitar a energia das águas para alimentar o centro, afastá-lo de zonas de risco e evitar taxas e impostos, por se situar em águas internacionais. As máquinas estariam em contentores e poderiam ser transportadas em navios, facilitando a substituição e manutenção. A comunicação com a terra seria por cabo.

A Intel está testar data centers alimentados a painéis fotovoltaicos. A Liquid Computing fala de data center dinâmicos que se adaptam às necessidades em cada momento das empresas.

Dados que impressionam

Sobre este assunto em particular, recomendo os sítios Data Center Knowledge e ZDNet Data Center Videos. Mas proponho com o mesmo entusiasmo o The Green Enterprise da ZDNet que aborda a questão da ecologia nas empresas de forma mais abrangente e bastante interessante. Tive oportunidade de conhecer o programa do OpenWork da Sun, o software Green Building Studio que está a ser desenvolvido pela Autodesk e que serve para melhorar o desenho dos edifícios em termos de ecoeficiência.

Mas não queria terminar sem dar alguns números do consumo de energia dos data center que nos devem fazer pensar. Um data center de tamanho médio representa, em termos de poluição, 2200 carros a circular todo um ano. Ainda no capítulo do consumo energético, cientistas questionaram-se se seria mais ecológico ver TV ou pesquisar no Google. Os cálculos revelaram que o uso da Internet é bem mais poluente. Realizar duas pesquisas no Google equivale a ferver uma cafeteira de chá em termos de emissão de CO2.

Para terminar, fica um curto vídeo que mostra claramente o que é um data center por dentro, no caso o da Oracle em Austin. Segurança ao máximo, sistemas de arrefecimento também, e, ainda, reforço com energia eólica.

Cloud computing, a nuvem que se aproxima

A Internet começou por ser uma ponte: ligava por email, encurtando distâncias e tempos de espera da entrega postal e disponibilizava alguns recursos interessantes. Empresas mais arrojadas criaram nessa época os seus websites.

Na era Google, passámos todos a pesquisar e a usar as suas ferramentas, tornando-nos dependentes delas para quase tudo. Na vida pessoal, as pessoas quiseram fazer-se mais presentes na rede. Chega a vaga dos Youtubes, dos Flickrs, das redes sociais e do Twitter – acompanhar em tempo real a vida de outros e ser seguido pelos amigos ou admiradores passa a ser o desporto favorito. AO mesmo tempo, as empresas passam a ver a Internet como montra de produtos e usam aplicações que ajudam a melhorar a relação com o cliente. A Administração local e central lança vários serviços à distância e a desmaterialização passa a constituir o cavalo de batalha de decisores. Nesta altura, entidades mais afoitas abrem as suas intranets e ligam-se à Internet para o trabalho quotidiano. As tags, os blogs, as wikis, os bookmarks, invadem os desktops e são ferramentas todo-terreno – trabalho e vida privada. Assistimos a campanhas de marketing especialmente desenhadas e lançadas no Facebook e no MySpace. Tornam-se cada vez mais visíveis os casos de empresas e organismos que se ligam às redes sociais e estendem os seus serviços.

Actualmente, fala-se da transferência – literalmente – da vida das empresas e das pessoas para a nuvem, metáfora da Internet. A plataforma de comunicação e de serviços parece estar a converter-se na plataforma da vida das sociedades. Enrique Dans num dos seus posts comentava “Con la cabeza en la nube”, parecendo dar um sentido novo ao ditado, ou talvez não. Sobre andar com a cabeça nas nuvens não existe consenso de se tratar de coisa boa ou má. Vamos estando por isso atentos…

E assim fica apresentado o tema deste post – os mistérios da nuvem.

Um céu ainda muito nublado…

A nuvem, a que todos se referem, é no seu original “cloud computing”, uma expressão lida, pronunciada e escrita nos mais recentes eventos e ainda em blogs ou em notícias dispersas. Não sei se a forma reúne consenso e se é do agrado das pessoas, como não o foi o termo “web 2.0”. O tempo o dirá…
E é na verdade um termo ainda muito novo. Os resultados da consulta da expressão no Google Insights Search são bastante curiosos. O termo começa a ser usado em inícios de 2007 e apresenta um crescimento, dir-se-ia, acentuado.

cloud_evolucao

A área geográfica no mundo que mais pesquisas realiza com essa palavra é a Ásia, estando a Índia à cabeça. A supremacia asiática em “cloud” é óbvia em quantidade e posicionamento na tabela. Os EUA, a Irlanda e a África do Sul ocupam posições mais modestas!
Também é reveladora a construção das expressões de pesquisa, na medida em que nos dão indicações acerca do tipo de associação que as pessoas fazem. Essas associações são: Google, Amazon, Microsoft, IBM, todas entidades com serviços já em funcionamento, em fase de experimentação ou anunciados. Em comum têm uma estratégia neste campo.

cloud_expressoes2

Afinal o que é isso de “cloud computing”?

Como dizia, o conceito ainda é vago, mesmo entre os protagonistas do meio, como no-lo revela o vídeo do evento Web 2.0 EXPO 2008 em San Francisco. Vários nomes sonantes da área da tecnologia e da Internet foram surpreendidos com uma questão muito simples: “What is cloud computing” e difícil foi responder satisfatoriamente ao “teste”, a avaliar pelos muitos eu penso. Mas a ideia que fica pode resumir-se a: fim da tortura de ter de instalar e configurar programas e hardware; felicidade e satisfação; não se importar com o que está na nuvem desde que funcione; plataforma aonde vai ocorrer toda a actividade; virtualização; novo modelo de distribuição de serviços de computação no futuro. Diria que o tom geral é de entusiasmo e percepção de algo positivo. Há apenas um alerta nas palavras de O’Reilly, que refere a necessidade de pensar o modo de distribuição dos dados, serviços e aplicações alojadas na nuvem, deixando entrever riscos de monopólios e discriminação.

O conceito refere-se a toda a panóplia de meios e conhecimentos necessários para aceder, utilizar e fazer funcionar um programa, mas não só. Inclui a disponibilização de serviços na Internet prontos a usar, tanto para armazenamento, como para processamento, cópia de segurança, partilha da informação que queiramos ou necessitemos. De certa forma é o que já fazemos há alguns anos com aplicações de email baseadas na web (Gmail, Hotmail, Yahoo mail). A aplicação está alojada na Internet, as mensagens são guardadas na Internet. Tudo se passa à margem do nosso PC ou portátil, sendo apenas necessária uma conexão e um navegador.

Deixo o vídeo do Cloud computing in plain english que explica grosso modo o que é e como funciona na perspectiva do utilizador final.

Protagonistas no campo do cloud computing

A corrida ao Cloud computing nos últimos meses tem sido acelerada. Depois de serviços com alguns anos, como os do Google, Amazon e Yahoo, empresas como a IBM, HP, Dell, Intel, Microsoft, avançam com volumosas somas para a investigação e criação de infraestruturas nesta área. O esforço de investimento é tão forte e a necessidade de uma solução global é tão premente que se assiste a parcerias e associações. Por exemplo, a Microsoft conta com o apoio da Sun Microsystems e da Dell. A IBM cria projecto com Google, mas também avança sozinha noutros.

Outro aspecto curioso é a chamada “inovação aberta”, ou seja, a inovação nesta área não está centralizada nos investigadores de batinha branca fechados nas quatro paredes da empresa, mas compreende uma comunidade alargada de investigadores com espírito empresarial que queiram participar nos projectos referência. Para que isso seja possível, a Microsoft e IBM, por exemplo, abriram os projectos a start-up, a universidades e centros de investigação. A ideia é galgar muito terreno em pouco tempo e aproveitar ao máximo o potencial dos criativos.

As áreas de investigação e inovação resumem-se a cinco realidades ou novas exigências:

  • Explosão da informação – A quantidade de informação que já existe e que será criada coloca desafios enormes ao nível do armazenamento eficiente e recuperação dessa informação, controlo de duplicados, organização e classificação automática de informação, etc.
  • Serviços web dinâmicos – Área que procura atender à necessidade de uma perfeita integração de serviços, desenvolvimento de funcionalidades atractivas e de forte componente interactiva, pesquisa semântica, eDiscovering, etc.
  • Transformação de conteúdo – Investigação que procura melhorar os processos de tradução simultânea, conversão de formatos, representação gráfica e visual, mashups, etc.
  • Infraestuturas inteligentes  e verdes – Sector que desenvolve infraestruturas funcionais com o mínimo de intervenção humana, que integram normas e esquemas universais e que tentam retirar partido da inteligência artificial.
  • Sustentabilidade e escalabilidade – Preocupação voltada para a construção de infraestruturas e plataformas com elevados graus de performance e adaptabilidade a diferentes necessidades e a largo prazo.

Passamos agora à descrição da actividade de algumas empresas no Cloud computing.

Amazon foi uma empresa pioneira no Cloud computing. Actualmente dispõe de um conjunto de serviços de computação via Internet muito completo debaixo da etiqueta Amazon Web Services. Possui desde há muito a EC2, para processamento e armazenamento, e a S3, dedicada exclusivamente ao armazenamento de dados. Neste momento, está em fase de teste a suite de serviços online SimpleDB.

O Google foi outra empresa que entrou há anos na cloud. Actua nos três níveis e possui data centers enormes espalhados pelo mundo. Numa notícia de Setembro, Google avançava uma solução de colocação dos seus data centers em alto mar, aproveitando a energia das ondas para produzir energia e a água para refrigerar. Além de verde, esta tecnologia oferece igualmente vantagens em caso de guerras ou catástrofes naturais com a retirada imediata de zona de perigo, além de ser uma solução livre de impostos, porque fica alojada em águas internacionais. Essa ideia já foi patenteada.

A HP Labs agarrou em 20/ 30 projectos na área e está a investir fortemente. Alguns resultados visíveis: Cloud Print, Cloud View, Book Prep, Face Bubble, Snapfish, uma espécie de Photoshop online.

A IBM quer ser um parceiro das empresas e dar-lhes a opção de criar a própria nuvem ou confiar na nuvem gerida por terceiros.

Finalmente, menciono o caso da Microsoft que está a conduzir-se com bastante determinação nesta área. Além da política de abertura já referida, tem programado o lançamento do Windows Live – Azure para 2010. Também o Exchange e o Office estarão na modalidade de SaaS. A plataforma prevê hosting, armazenamento (prepara-se a construção de 20 data centers de última geração) e serviços como o CRM, por exemplo.

Segundo um relatório da Gartner, o Cloud computing vai impor-se nos próximos 5 anos e quem estiver fora da nuvem praticamente não existe. Mas em relação à expressividade do Cloud computing na actualidade, um outro estudo do The Pew Internet & American Life Project Use of Cloud Computing Applications and Services revela que nos EUA 69% da população usa cloud computing sem saber sequer o que isso é. Os serviços que contribuem para essa percentagem são sobretudo o correio electrónico, o armazenamento de fotos e o uso da suite Google Docs ou Photoshop Express. Esta realidade diz respeito quer aos consumidores quer às empresas, onde as ferramentas de e-groupware e CRM via Internet adquiriram já uma importante fatia do mercado.

Níveis e serviços

“Cloud computing” começou por estar muito associado ao hardware, mas rapidamente estendeu-se à totalidade dos elementos necessários ao funcionamento de qualquer serviço para o utilizador final, falando-se em três níveis de cloud computing, como se pode ver no esquema. Em qualquer dos níveis existe a perspectiva do serviço, porque a ideia base inerente a esta tecnologia é a de que tudo é serviço e uma espécie de self-service de outsourcing em tecnologias da informação.

Nível 1 – IaaS (Infrastructure as a Service) – Patamar formado pelos servidores, armazenamento e processadores. É a parte crítica do sistema. Ex. Amazon Elastic Compute Cloud (EC2); GoGrid…

Nível 2 – PaaS (Platform as a Service) – Constituído pela estrutura onde são instalados os programas. É configurável e pode ser adaptado às necessidades de determinada empresa. Ex. Google AppEngine; Force.com; Yahoo Pipes…

Nível 3 – SaaS (Software as a Service) – Neste sector situam-se as aplicações, programas e serviços que já estão preconfigurados e aptos a ser usados. O nível de configuração é muito reduzido, limitando-se a questões de visualização e apresentação da informação. Ex. Gmail; GoogleDocs; Force.com Sites; Zoho CRM; SAP…

Vantagens e inconvenientes

Os aspectos positivos são particularmente relevantes para as empresas, embora os perigos também sejam maiores quando pensamos neste universo de clientes do Cloud computing.

1. Serviço disponível 24/7 – Aplicações e dados ficam acessíveis desde qualquer lugar e em qualquer momento.

2. Fiabilidade – Taxa de erro e bloqueios nas máquinas de cloud computing é inferior à das nossas máquinas.

3. Uniformização da variedade – No universo Cloud computing coexistem dados oriundos de qualquer dispositivo (portátil, smartphone, etc.), aplicação, rede social ou website. No entanto, para o utilizador final tudo é transparente e está correctamente sincronizado. É o caso do serviço Live Mesh da Microsoft que se propõe reunir num único ponto toda a actividade na Internet de uma pessoa. O objectivo é proporcionar ao utilizador uma experiência única, sem saltos e sem descontinuidades.

4. Facilidade e simplicidade no acesso – Para ligar-se à nuvem, é apenas necessária a ligação à Internet e um browser.

5. Economia nos gastos de hardware, software, licenças, backups e actualizações – Esta vantagem aplica-se sobretudo às empresas, porque deixa de ser necessário montar e gerir infraestrutura e o parque tecnológico dentro de portas. E só para ter uma ideia dos ganhos, o custo por utilizador num ano do Google Apps fica em $50 enquanto uma licença MS Office fica por utilizador/ ano em $500. Deixa de ser problema decidir onde alojar o website ou como configurar o servidor web.

6. Custo baseado no uso e nas necessidades reais – Compra-se o serviço ajustado às necessidades e uso num dado momento. Se por acaso a empresa aumenta o número funcionários ou o volume de informação, pagará exactamente pelos utilizadores e Mb a mais. Desta forma, evita-se o investimento em infraestruturas, às vezes sobredimensionadas, ou em aplicações que se revelam na verdade pouco úteis ou adequadas.

7. Rentabilização efectiva de meios e investimentos – Na perspectiva dos fornecedores dos serviços de Cloud computing é muito mais fácil explorar ao máximo as infraestruturas criadas e disponibilizadas. A gestão dos servidores, dos data centers gigantescos e das plataformas de serviços tornam-se mais rentáveis na versão de Cloud computing, porque a escala de fornecimento de serviços passa a ser global, com uma gestão mais inteligente e eficiente. A título de exemplo, refiro a Amazon. Nos picos da época natalícia, o sistema de resposta aos pedidos da Amazon bloqueava e falhava. Para garantir um bom serviço, a empresa investiu brutalmente na infraestrutura. Porém, fora das épocas de maior procura, a estrutura era subaproveitada. Foi então que a Amazon começou a alugar espaço livre a terceiros. Sem a tecnologia Cloud, esta solução de optimização da infraestrutura não seria possível.

Listo agora os problemas associados à cloud, embora algumas dificuldades possam vir a solucionar-se parcialmente a curto ou médio prazo. Os peritos aconselham a que as empresas avaliem os riscos e usem serviços via Internet para informação não crítica.

1. Segurança – O alojamento de dados sensíveis em bases de dados e aplicações de terceiros é um risco considerável. Também há plataformas que oferecem mais garantias que outras ou soluções mais seguras. Por exemplo, a Blue Cloud da IBM permite criar uma nuvem corporativa dentro da grande nuvem. Há sempre a possibilidade da empresa controlar a sua infraestrutura ou confiá-lo 100% a terceiros. A segurança é o factor que mais afecta a adopção desta solução, por isso é um aspecto muito central nos prestadores de serviços de outsourcing TI. Actualmente, os modelos não respeitam integralmente as exigências legais nem os preceitos de segurança, contudo prevê-se que a segurança chegue ao Cloud computing num horizonte de tempo curto.

2. Protecção de dados e privacidade – Esta é uma área extremamente sensível e complexa, até porque os dados vão estar alojados algures na rede e as legislações de dados pessoais são nacionais. A possibilidade de cruzar dados e obter perfis é real, não havendo ferramentas eficazes para evitá-lo. Recentemente, em entrevista, a presidente da Agência Catalã de Protecção de Dados alertava para esse efeito, um problema que o Cloud computing tenderá a acentuar.

3. Dependência da ligação à Internet e disponibilidade do serviço -Os utilizadores dependerão cada vez mais da qualidade e permanência da ligação à Internet, mas também das garantias e disponibilidade real das infraestruturas e plataformas da nuvem para trabalhar.

4. Perda de controlo – Segundo o Richard Stallman da Free Software Foundation o Cloud computing é uma ameaça e chega mesmo a dizer que é uma estupidez, porque a pessoa perde totalmente o controlo e porque os preços do serviço tenderão a aumentar. Portanto, segundo este autor, a vantagem económica vai-se esfumar num futuro próximo. Também alerta para algum tipo de restrições destes serviços e cedência de direitos de dados dos utilizadores para continuarem a usufruir de determinadas condições.

5. Maior dependência – A Cloud cria um paradoxo, porque ao criar condições para um acesso livre e independente de qualquer ponto e momento, acaba por tornar-nos cada vez mais dependentes da ligação à Rede. A Internet é cada vez mais uma extensão de nós mesmos.

A passagem à nuvem parece inevitável, a crer na orientação mais recente das políticas das empresas de TI e na franca adesão das pessoas singulares e empresas à filosofia do “tudo é serviço”. Porém, não deixam de ser pertinentes algumas perguntas incómodas no ar, que terão de obter resposta brevemente, para bem da saúde e credibilidade do negócio da nuvem. A saber: que privacidade é possível no universo da nuvem? quem detém a propriedade dos dados, o utilizador do serviço ou o fornecedor? ficará mais fácil a temerosa regulação da Internet? Berlusconi acaba de afirmar essa necessidade. Será que a ideia irá encontrar adeptos?