Redes sociais – que modelo?

As redes sociais prosperam e recomendam-se, não, contudo, sem altos e baixos e algumas nuvens no horizonte. Discute-se o modelo de financiamento, estudam-se formas de funcionamento sustentáveis e, sobretudo, rentáveis. O caso do Youtube ilustra essa busca do Santo Graal das redes sociais. Já nas mãos da Google, fazem-se ensaios de como incluir publicidade ou promover certos vídeos, procurando o sucesso do Google Adwords e Google Adsense neste universo. Veja-se a propósito a série de material e dicas de como utilizar este meio para criar canais de promoção, campanhas e promover produtos e serviços.

Mas o motivo para trazer as redes sociais a este espaço foi a decisão do Facebook em alterar unilateralmente as condições de uso do serviço, causando a ira dos utilizadores.

O caso da polémica

A mudança das condições de serviço do Facebook em inícios do mês de Fevereiro caiu que nem uma bomba na comunidade de 175 milhões de utilizadores. Haverá que dizer que a mobilização foi de 120000 pessoas que se manifestaram em blogs e no site da empresa, que solicitaram o encerramento da contas ou que apagaram fotos e outros conteúdos colocados por si na plataforma.

Mas independentemente do número de vozes contra, o que indignou muitos membros do Facebook foi a modificação de uma cláusula que atribuía uma licença perpétua, ilimitada e com alcance mundial a todo o conteúdo publicado livremente no site pelos utilizadores, mesmo nos casos de fecharem a conta ou desejarem apagar esses conteúdos. Essa licença incluía todo o tipo de uso dos conteúdos – copiar, reproduzir, alterar, traduzir, adaptar, reter, publicar, usar para fins comerciais.

Desta cláusula abusiva e permissiva deu o alerta o jornal The Consumerist, desencadeando reacções imediatas. Mark Zuckerberg, o rosto do Facebook, veio pôr água na fervura. Explicou no blog que a intenção não era apropriarem-se dos conteúdos dos membros nem substituírem-se aos utilizadores no controlo da informação pessoal e conteúdos que trocam com outros. Esclareceu que o objectivo era evitar que a retirada de conteúdos decidida a dada altura por um utilizador inviabilizasse a sua visualização e consulta.

A empresa decidiu recuar perante a chuva de protestos e voltar à situação anterior. Além disso, actualmente convidam os membros a participar na elaboração da nova versão do documento das condições de serviço a que chamaram “Declaração dos direitos e deveres do Facebook”.

Redes sociais há muitas

O fenómeno das redes sociais já há algum tempo que seduz estudiosos e observadores da Internet. Além de constituir um “caso de estudo” em que se reúne em pouco tempo quantidades impressionantes de material para trabalho sobre tendências, comportamento social, líderes de opinião e outras matérias, constitui uma fonte de recolha de perfis de consumo e um alvo comercial das campanhas de marketing cada vez mais personalizadas.

São vários os tipos de rede social – as generalistas que agrupam amigos reais ou conhecidos no espaço virtual, as redes profissionais para troca de contactos e promoção na área de trabalho, de blogs, ou por temas de interesse – música, viagens, cinema. Mas também são diversas as redes que têm caminhos de sucesso diferentes. Enquanto algumas nunca mereceram a atenção do público, outras tiveram um crescimento exponencial, como o caso meteórico do Facebook.

Também a popularidade de algumas redes está directamente ligada a um país ou área geográfica. Por exemplo, na Índia a rede mais famosa é Orkut. A própria receptividade das redes sociais é claramente mais forte no Ocidente que na Ásia, sobretudo na China, pois os jovens chineses não aspiram a aumentar o seu círculo de amigos por essa via nem partilham o mesmo universo de interesses da comunidade do Facebook, por exemplo. Em notícia, avançavam-se as diferenças culturais, sociais e políticas como motivos determinantes na adesão a este tipo de serviços. E certo é que se uma rede social conseguisse ir ao encontro de comunidades tão extensas como a chinesa (300 milhões de internautas), bem que podia pôr-se à sombra da bananeira.

redes_lista

O quadro revela a ominipresença dos EUA nas redes sociais, mas também fica patente que a entrada de países da Ásia e da América Latina nas redes reescreverá a história deste fenómeno.

As redes generalistas são as que mais popularidade e membros possuem.

No caso do Flickr e do Youtube não foi possível encontrar total de contas registadas, porque são serviços ligados a outros, Yahoo e Gmail, sendo difícil separar as águas e obter números fidedignos.

Um estudo a seis redes sociais pela RapLeaf, uma empresa especializada no estudo das redes sociais, avança algumas informações interessantes sobre o perfil de utilizadores das redes.

redes_perfis

São mais as mulheres que frequentam as redes, excepto no caso da Linkedin, onde o perfil masculino domina. Nesta mesma rede, a faixa etária jovem tem pouca expressão, o que é perfeitamente lógico, visto tratar-se de uma rede profissional. Outro elemento a ter em conta é o registo em várias redes, quase três na média. A Plaxo é a que possui membros com maior registo noutras redes. O facto explica-se por se tratar de um agregador de contactos.

Modelos e modelos…

O caso relatado suscitou dúvidas acerca das regras de funcionamento das redes sociais em matéria de privacidade e direitos de autor, mas também alerta para a relativa facilidade com que se alteram as condições de um momento para o outro, sem que nada possa valer a não ser os protestos.

Num exercício de levantamento de redes e políticas, verifiquei que há modelos muito diferentes, que vão desde o estrito respeito e máximas garantias dadas aos utilizadores (Twiter e Tuenti, por exemplo) até à apropriação de conteúdos assumida ou dissimulada, como se verificou no episódio com o Facebook.

Dois aspectos – a segurança/ privacidade e o tratamento dos conteúdos, constituem na actualidade as matérias sensíveis relacionadas com as redes sociais, mas o quadro abaixo apenas reflecte o levantamento realizado para os conteúdos. Na sua elaboração foram utilizados os textos dos termos de condições das redes em questão.

redes_condicoes

Começando a leitura dos elementos reunidos, pode dizer-se que existe claramente um padrão nestas licenças – quase todas elas limitadas ao período de uso do serviço. A linguagem é tambémsimilar, sendo verdade que a maioria dos serviços retratados são de origem ou de influência norte americana.

Há o cuidado em salvaguardar a impossibilidade ou dificuldade em fazer coincidir o fim de um contrato com o fim das cópias de backup, pelo que podem persistir por algum tempo no sistema os conteúdos apagados pelo utilizador. Durante o tempo em que o membro utiliza o serviço, o fornecedor pode fazer quase todo o tipo de acções com o conteúdo daquele. Nalguns casos, pode usá-lo mesmo para fins comerciais. A extensão dos direitos a terceiros está por vezes muito diluída nos termos em que é referido. Fala-se no site, o âmbito mais aceitável, mas depois declara-se que pode estender-se a serviços, a parceiros. No caso do Google, um gigante na área, ficamos com a sensação que os direitos poderão ser cedidos a meio mundo, tal a quantidade de empresas que trabalham com Google ou pertencem ao seu universo.

Salvo no caso do Flickr, onde área pública e privada estão delimitadas e o uso de CC está previsto, o membro não tem qualquer controlo em relação aos usos do material que disponibiliza. Tal como recomendava o The Consumerist, o remédio é mesmo ponderar antes de publicar.

A rede Linkedin tem a particularidade de assenhorar-se totalmente dos conteúdos da autoria dos seus membros. É curiosa a frase despudorada: «You do not have to submit anything to us, but if you choose to submit something (including any User generated content, ideas, concepts, techniques and data), you must grant (…)». É assumida claramente a cedência dos direitos, não havendo margem para dúvidas após a leitura do texto. Já no texto alterado do Facebook, a alteração foi tão subtil e  passava tão despercebida que levantou dúvidas acerca da boa fé da empresa.

Apesar da privacidade não ter sido objecto desta análise, a garantia de maior ou menor protecção dos dados pessoais e dos conteúdos dos membros está intimamente ligada ao modelo de negócio. A série de aplicações que é possível pôr a funcionar na plataforma do Facebook por entidades terceiras impede que o fornecedor de serviço consiga dar garantias mínimas nesse campo. Inocentes jogos de palavras, clubes, questionários sobre gostos musicais, quiz e outros, permitem que empresas interapelem os utilizadores de Facebook. Responder a qualquer destas propostas implica em geral aceitar que os dados do perfil sejam transferidos para essa identidade, muitas vezes com um simples clique, sem que a pessoa esteja consciente das implicações.

A este propósito, a BBC realizou uma investigação que põe a descoberto a fragilidade de Facebook na segurança. Frequentes vezes, as opções estratégicas para tornar o modelo da rede social mais rentável levam os fornecedores de serviço a descurar aspectos cruciais para a credibilidade e boa imagem da rede na opinião pública. Acerca do Facebook, é inegável o interesse crescente pela publicidade, na forma de anúncios, e na procura da visibilidade – integração com websites, partilha de conteúdos via “share link”.

A jeito de conclusão

O que é importante reter desta lição é a forma negligente com que continuamos a aceitar as condições nos registos de serviços na Internet sem as lermos atentamente. Este episódio tem também o mérito de levantar a ponta do véu relativamente a um assunto que ocupará certamente as conversas nos próximos tempos – a guerra pelos conteúdos e informações pessoais.

Não é desejável uma oposição por norma às redes sociais, mas é precisa muita cautela e sobretudo não fazer algo em que nos sintamos desconfortáveis. A escolha do que publicar em cada lugar é importante e uma leitora comentava na sequência da notícia que não a chocava que os conteúdos do seu espaço Facebook fossem utilizados e até comercializados, mas já achava abusivo que os seus artigos no blog com licença CC, que faziam “share” com o Facebook, passassem a “propriedade” da Facebook e que a empresa pudesse fazer negócio com conteúdos marcados pela autora como livres para partilhar.

Estas e outras “voltas” das redes continuarão a exigir atenção e escolhas acertadas.

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