Feeds, um mecanismo indispensável

Dada a imensidão de fontes de informação na Internet e a rapidez da renovação dessa informação, surgiu um mecanismo extremamente útil e versátil, que uma vez experimentado, não se dispensa mais. Falo dos Feeds, palavra em inglês para designar um conjunto de dados transferidos de máquina para máquina de forma automática, sem que seja necessária a intervenção humana.

O ícone genérico para esta funcionalidade é o do RSS .

Vantagens no uso dos feeds

Simplificar a actualização da informação que nos interessa é já um argumento de peso para usar feeds. Mas as vantagens não ficam por aí. Veja-se a lista de benefícios:

  • selecção pessoal das fontes de informação
  • recepção das novidades logo após publicação
  • proliferação de programas de leitura de feeds, havendo-os para todos os gostos
  • gestão simples das fontes: acrescentar, remover, organizar
  • protecção contra spam, vírus, etc., ao contrário do que acontece com as subscrições por email
  • gestão mais saudável do email, que não é inundado por “novidades”

Funcionamento dos feeds

Este mecanismo assenta na arquitectura servidor/ cliente. Isto é, o fornecedor de conteúdos —em geral um jornal, um autor de blog— disponibiliza um endereço que o utilizador final pode subscrever sem custos. Utilizando um programa de feeds, a pessoa copia essa direcção do jornal ou blog para a lista pessoal de feeds. Nesse mesmo instante, as últimas notícias são carregadas no seu programa e daí em diante isso far-se-á automaticamente, sem que o interessado tenha que digitar o endereço no navegador e incomodar-se a verificar se há novidades.

A tecnologia por detrás é conhecida por Pull Technology, já que o programa escolhido de feeds é que puxa as novidades do servidor onde estão alojados os conteúdos para difusão.

Neste vídeo divertido da Common Craft são apresentadas as vantagens e o princípio de funcionamento.

Soluções para ler feeds

Os feeds tornaram-se tão essenciais na Rede que o seu uso estende-se a todas as aplicações e ferramentas da web. Enumero as principais, embora haja variantes.

1. Páginas web personalizadas. Os feeds podem ser introduzidos naquilo que ficou conhecido por página de entrada na Web. É o caso do iGoogle, do PageFlakes, do Netvibes, do My Yahoo ou My MSN. Qualquer destas aplicações dispõe da opção de acrescentar conteúdo novo. Na imagem, pode-se ver essa opção no Netvibes. É uma forma muito prática, porque assim que nos conectamos, temos oportunidade de consultar as novidades dos serviços que subscrevemos. É muito fácil acrescentar novos feeds, mas também remover, quando concluímos que afinal não nos interessam.

2. Leitores de feeds na web. Serviço em que a pessoa se regista e acede quando quer ler os seus feeds. Caso do Bloglines, Google Reader. Permitem ler, importar e exportar feeds em ficheiro XML, partilhar feeds com amigos, organizá-los por categorias em estrutura de árvore, associar etiquetas, etc. Na imagem podemos ver o Google Reader que não difere muito de outras ferramentas.

3. Feeds nos navegadores. Qualquer navegador – Firefox. Internet Explorer, Safari…, dá a possibilidade de incluir feeds. Em geral, essa funcionalidade está disponível nos Favoritos. O procedimento no Firefox requer que visitemos a janela dos Marcadores. Uma das opções é “Subscrever a esta página”, precisamente a que surge na caixa do navegador e está indicada com o ícone de Feeds.

4. Programas de email. Outra opção de gerir os feeds é através do Outlook, Thunderbird, Kontact, etc. São em geral suites formadas por aplicações PIM (Personal Information Management), tais como gestor de correio, gestor de contactos, calendário, gestor de feeds. Apresento na imagem o Kontact, usado com o Linux. À semelhança de outros, oferece um serviço de gestão de feeds, neste caso, o AKgregator.

Formato dos feeds

O formato mais comum é o RSS (Really Simple Syndication), mas também existe  o Atom (Atom Syndication Format). A base de ambos é o XML e/ou o RDF/XML.

Em termos cronológicos, o RSS antecedeu o Atom, por isso é frequente designar a sindicação de conteúdos em geral por RSS. No entanto, o aparecimento do formato Atom veio na sequência da falta de interoperabilidade e falhas no RSS. O Atom é mais robusto e versátil, porque usa a estrutura de metadados RDF. Assim, quando existe a opção de subscrever nos dois formatos, é preferível eleger o Atom.

Há serviços e serviços…

Serve este capítulo para referir que os serviços de actualização são criados pelos fornecedores desses conteúdos, que estão obviamente interessados em que as pessoas os leiam, os refiram e os difundam em blogs, websites, etc.

Há-os especificamente para textos, mas também para podcast. Começa agora a aparecer o RSS-narrator, um tipo de feed com o mesmo objectivo geral, mas com a particularidade de converter o texto em voz. O utilizador não lê, mas ouve as novidades, algo bastante prático quando se conduz para o trabalho. Veja-se o caso do Talking News que além de usar os podcasts disponíveis nos media seleccionados, converte igualmente texto em audio.

Acontece que há serviços de Feeds que permitem uma selecção mais refinada da informação pretendida. Nos dois jornais de referência escolhidos, o Expresso e o El País, pode ver-se a diferença e o impacto na qualidade do serviço para o utilizador final.

Graças aos filtros disponibilizados pelo jornal El País, foi possível introduzir na “Agulha no palheiro” as 10 últimas notícias na área da tecnologia, sendo a área que sigo atentamente e que está relacionada com a temática tratada neste blog. Desta lista de apontadores, os leitores podem consultar alguma notícia que lhes desperte curiosidade.

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Jornais e revistas na mira do Google

No passado dia 8, na Conferência deste ano do TechCrunch50, foi apresentado o projecto Google News Archive por Marissa Mayer.

Trata-se de um projecto lançado a 6 de Setembro de 2006, mas ao qual a empresa quer dar agora nova visibilidade e dimensão. Para isso, está a negociar com editores de jornais e revistas, à semelhança do que fez com o Google Books, iniciado em 2004.
Actualmente, o serviço Google News tem um tráfego de 9,5 milhões/ dia e atingiu a maturidade, pois já funciona desde 2002. A ideia de relançar a versão arquivo permite fortalecer a ferramenta e servir a mais necessidades e utilizadores.
De referir que a ideia do projecto não é nova. Além de decalcar modelos bem sucedidos nos mapas e nos livros, existe já no meio jornalístico desde 2003 o projecto Journalismnet, que permite pesquisar notícias antigas. Mas enquanto que neste exemplo, a recolha é da imprensa, rádio e televisão, no caso de Google só são notícias escritas.

Introdução

Google News Archive é um motor de pesquisa vertical (Vertical search) dedicado a notícias de arquivo. Trata-se de uma hemeroteca que difere do Google News Service por trabalhar mais a perspectiva temporal. Assim, as notícias com mais de 30 dias do Google News passam aos arquivos, embora ocorram atrasos nessas transferências. Por outro lado, o serviço de arquivo não recupera todas as notícias mais recentes, apesar de possuir a opção de notícias de há uma hora, do dia anterior ou de há uma semana.
Como explicámos em post anterior, a pesquisa vertical tem as suas virtudes, mas só funciona bem se a pessoa a usa para o fim para o qual foi pensada.
Presentemente, são dois serviços independentes, mas os responsáveis não descartam a hipótese de fundir tudo num só serviço no futuro. Está claro para quem estuda os motores, que existe um sub-aproveitamento da pesquisa especializada por parte dos utilizadores.

Finalidade do News Archive

Os responsáveis garantem que o objectivo principal é o de proporcionar uma mais rica experiência na pesquisa e alargar o leque de recursos gratuitos acessíveis pela Internet.
Nós podemos acrescentar, sem qualquer margem de erro, que a empresa pretende reforçar a sua liderança no mercado da organização e disponibilização de informação, criando mais produtos/ serviços para que o seu motor de pesquisa continue a ser o mais utilizado. Mais uso, mais interessados em usar o espaço Google para publicitar.
Todavia, há que reconhecê-lo, esta iniciativa prova que existem nichos no mercado que não são oportunamente explorados por outros actores. A própria imprensa mundial podia haver criado anteriormente consórcios e avançar com projectos de digitalização do papel e experimentar novos modelos de negócio na Rede.
Todos são conhecedores das graves dificuldades da imprensa convencional, da perda de assinaturas e da adopção da versão online de muitas edições em papel, ou ainda do aparecimento de versões electrónicas de raíz. Também se assistiu ao acesso incondicional aos arquivos dos jornais, depois ao acesso exclusivo para assinantes e, mais recentemente, à reabertura das hemerotecas digitais ao público em geral. É notória a reacção em vez do proactivismo neste sector. Uns resolveram esperar para ver, ciosos dos seus activos, outros não tiveram a dimensão nem a estrutura para isoladamente encontrarem um modelo sustentável na Internet.

Características do projecto

Fontes
Existem duas vias de alimentar a colecção deste arquivo. Na primeira possibilidade, Google coloca um crawler (spider) a recolher da Internet as notícias disponíveis. Mas, porque grande parte da informação não está acessível aos robots, por causa do que ficou conhecido por Internet invisível, a empresa decidiu sondar o mercado editorial da imprensa e propor essa disponibilização electrónica. Nesta via, há dois cenários: ou a entidade já tem o seu fundo em formato digital ou digitalizado, negociando-se apenas a modalidade de acesso; ou a colecção está em papel e deve ser digitalizada, assegurando Google esse serviço.
A receptividade da imprensa mundial nos primeiros anos foi pouca. Os detentores de conteúdos temiam a concorrência do Google. Mas a verdade é que sem concentrarem o acesso numa plataforma de consulta e distribuição, do Google ou de qualquer outra entidade, é complicado fazerem-se visíveis na Rede. O utilizador não vai estar a consultar jornal a jornal para um estudo ou levantamento de um tema, como já não o faz para se manter actualizado no dia-a-dia, recorrendo ao serviço Google News ou Yahoo News.
Agora, são mais as entidades que estão convencidas de que é uma fonte de receitas e que permite uma maior proximidade dos leitores.
Quanto à tipologia das fontes, existem basicamente 3 tipos de fornecedores de conteúdos: jornais/ revistas e agências de notícias (fontes primárias) e os agregadores (fontes secundárias), que dão acesso às primárias por subscrição e oferecem serviços/ produtos com valor acrescentado.
Google optou por não divulgar a lista de entidades do universo editorial que já aderiram ou com quem estão a negociar. Contudo, alguns nomes são conhecidos. Os jornais – Time, The Wall Street Journal, The New York Times, The Guardian e The Washington Post; os agregadores – Factiva, LexisNexis, Thomson Gale and HighBeam Research; as agências – AP e AFP.

Financiamento
Ter por objectivo disponibilizar online arquivos de notícias não é tarefa fácil, porque envolve custos pesados, sobretudo se as colecções estão em papel, se são muito grandes e/ou se estão em estado de preservação delicado. Qualquer das situações requer uma boa política de planificação quanto a direitos, armazenamento, etc., mesmo quando se trate de colecções born digital.
Google mantém o segredo acerca da fatia de orçamento destinada a este projecto, mas a viabilidade está assegurada pelas receitas que gerar o AdSense (ferramenta de publicidade do Google) e da cobrança da digitalização de colecções, nos casos em que isso vier a ocorrer. As receitas de publicidade serão para dividir com os editores.

Cobertura temporal e geográfica
Foi anunciado um período de cobertura temporal de 244 anos, o tempo de vida do jornal mais antigo que faz parte da colecção – Quebec Chronicle-Telegraph. Mas é óbvio que a maioria dos registos datam de épocas mais recentes, sobretudo de 1944 até à actualidade. O objectivo de Google é desbloquear situações de digitalização de fundos mais antigos junto de entidades que o queiram disponibilizar.
Na fase de arranque, os jornais e revistas incluídos eram americanos, mas presentemente estão a aderir editores de outros países e línguas.

Tamanho
Referem-se cerca de 100 entidades até ao momento. A colecção é ainda muito pequena e há temas/ tópicos sem qualquer notícia. Os responsáveis recomendam o tema do assassinato de Kennedy e a ida à Lua de Neil Armstrong e Edwin Aldrin para uma avaliação do potencial deste arquivo.
São já milhões as notícias pesquisáveis, mas isso representa uma gota no oceano da imprensa. Para ter uma ideia da dimensão do projecto, considerem-se os números de um único título. O jornal Time, que optou pelo regime de acesso livre, tem 1400 números e 300000 notícias digitalizadas que compreendem um período que vai desde 1923 à actualidade.

Tecnologia

Neste projecto Google usa a mesma tecnologia que para os livros com algumas melhorias, não só fruto da experiência, mas também da especificidade dos jornais (necessidade de localizar a notícia na página, em geral mais ampla). A Heritage Microfilm, especializada em criar microfilmes de preservação de jornais, e a ProQuest, grande fornecedor de serviços de informação – recolhe, organiza, publica e distribui informação, são os principais parceiros tecnológicos neste projecto.

Funcionalidades do site

Acesso
O acesso a este serviço faz-se desde a página do Google News através da opção “News Archive Search” ou da página do News Archive.
Quanto ao acesso às notícias, há o acesso livre e o acesso mediante pagamento. Se há lugar a cobrança, o utilizador é redireccionado para o jornal/ revista em causa. Isto significa que este processo escapa à gestão do Google e essa operação não tem lugar sequer na plataforma da empresa. Todavia, a pessoa pode sempre antever a notícia (preview) antes de passar à fase de aquisição.
Para as notícias em acesso aberto, existe o formato electrónico (independentemente da data), e o formato digitalizado, ao qual Google chama de notícias em contexto. Este último caso é fruto das digitalizações realizadas pela empresa e apresenta a notícia na página de jornal, sendo possível navegar pelas várias páginas desse jornal e ver outras notícias desse dia, a publicidade, as imagens e fotos, etc.

Na imagem, é possível ver uma notícia digitalizada em contexto, uma notícia digitalizada e uma notícia já publicada em formato electrónico.

Pesquisa

O motor procura em todo o corpo da notícia (pesquisa a texto completo). Dependendo da modalidade de pesquisa – simples ou avançada, é possível mais ou menos precisão. Os critérios são vários e parametrizáveis: a data pode ser detalhada ao dia; o custo da notícia permite filtrar por notícias gratuitas ou valores específicos. Além disso, o sistema permite introduzir o jornal pretendido e a língua dos resultados.

Debaixo do menú geral de pesquisa, existem uns tópicos/ temas seleccionados como sugestão. Funcionam como pre-pesquisa, caso algum dos temas interesse à pessoa, e também como exemplo de como se deve pesquisar, servindo de mote para um utilizador menos treinado.
Atentando nesses temas pre-pesquisados, avalia-se prontamente a forma como está organizada a informação para recuperação. São em geral personalidades individuais ou colectivas (marilyn monroe, duran duran), factos com designações bem conhecidas do grande público (keneddy murder), e fenómenos políticos, económicos, naturais, etc. (iraq war, kyoto protocol, aurora borealis, cyberespace). A organização da informação segue a lógica do clustering. Agrupa-se o que está relacionado com um tema ou tópico.

Visualização de resultados
O serviço oferece a possibilidade de consultar os resultados por notícias (News articles) ou por tabela cronológica (Timeline). Nesta última, são usados algoritmos que organizam as notícias na linha do tempo e geram um gráfico e uma espécie de clusters temporais do lado esquerdo. É uma forma muito sedutora de apresentar resultados e que permite leituras interessantes do tratamento de determinado tópico ao longo do tempo.

Experimentei a consulta por Timeline com o termo “web 2.0” e constatei que só há notícias com este tema desde 2004. A pesquisa a “marilyn monroe” apresenta dados que vão desde 1500 a.C. até à actualidade. É compreensível a predominância na fatia 1950/1960, época de auge da actriz; fazem igualmente sentido as datas mais recentes, associadas a notícias póstumas sobre revelações, objectos que vão a leilão e outros. Mas questionei-me sobre as datas a.C. Seleccionando essa zona na tabela temporal, verifiquei que se trata de uma data relacionada com ensaios sobre a beleza de que a actriz é um exemplo. Isto significa que a Timeline considera não só as datas das notícias, mas também as datas que fazem parte do conteúdo dessas notícias.
Creio que fica explicado o interesse e o potencial associado a esta ferramenta.
Sobre a consulta da notícia na página de jornal em que originalmente surgiu (notícia em contexto), o que se pode dizer é que é outro factor que enriquece a visualização de resultados. Isto só ocorre com as notícias digitalizadas pelo Google, ou seja, aquelas que contenham a indicação da entidade que detém o conteúdo, seguida de “Google News Archive”.

Todo o contexto da época pode ser recuperado, desde o destaque dado à notícia até à visualização das fotos originais, passando por aspectos mais técnicos como a composição, as fontes, etc. A exploração é muito intuitiva. Funciona:

  • o zooming;
  • a visualização em ecrã completo;
  • a navegação pelas várias páginas do jornal;
  • a cor de destaque nas palavras pesquisadas;
  • a localização da notícia na página (layout à direita);
  • a possibilidade de obter o URL exacto da notícia para colocar em listas de referências bibliográficas (Link to article).

Refinamento e expansão da pesquisa
Como fica provado, desde a visualização dos primeiros resultados, é possível numa lógica de clustering, relançar a pesquisa, restringindo os resultados a determinados parâmetros de tempo.
Além de reduzir o espectro de resultados, é possível alargar os mesmos através das opções “Related news” e “Related pages”. São opções com funções distintas. A primeira usa os clusters e apresenta outras notícias com o mesmo tópico/ temática. Já a segunda utiliza a lógica dos URL e dá páginas que estão ligadas à página da notícia que seleccionarmos.

Ordenação de resultados
Os resultados são apresentados por relevância na modalidade “News articles”. Quando se elege a opção “Timeline”, o critério é cronológico.

Monitorização de temas/ tópicos
À semelhança do serviço de alertas do Google News, é possível criar o “Google alert”. Para criar um alerta, basta indicar o tema, seleccionar a modalidade “News” no tipo de informação que se pretende, indicar a periodicidade com que se deseja que o alerta funcione (sempre que haja novidade, 1 vez no dia ou 1 vez na semana).
Desta forma, é-se notificado acerca da entrada de uma notícia nova no arquivo. É preciso não esquecer que este arquivo tende a crescer e está a ser alimentado.

Globalmente, penso que este projecto está ganho e é-o porque está pensado para o utilizador final. Por muitas críticas que se façam ao Google, há que reconhecer-lhe mérito e visão estratégica. Seria benéfico que outros “googlizassem” mais a sua perspectiva e tentassem antecipar-se, em vez de se contentarem em apanhar o comboio à última hora.
Acerca da crítica mais contundente ao projecto – acesso a notícias com pagamento, parece-me arrogante. Esse facto não depende do serviço. Além isso, é preferível ter um serviço que permita pesquisas e uma lista de referências que se poderá consultar sem custo em bibliotecas ou hemerotecas, do que não ter qualquer base de trabalho à partida. Por outro lado, num serviço rápido, cómodo e de qualidade, é legítimo que um valor justo seja cobrado. Já não estou de acordo que se cobrem exorbitâncias por um recurso para cujo acesso não existem alternativas.

Facturação electrónica – Parte II

A facturação electrónica é de implementação complexa, porque integra uma vertente tecnológica (infraestrutura de hardware e software), uma forte componente de segurança, mediada por uma terceira parte, e uma componente legal.
Apesar do retorno do investimento ser rápido, empresas com sistemas de informação rudimentares e sem capacidade financeira sentem sérias dificuldades em adoptar a facturação electrónica. Porém, nos últimos anos, o mercado evoluiu para produtos diferenciados e oferece soluções simples, a pensar sobretudo nas PME, libertando-as da necessidade de ter dentro de portas a estrutura.

Características e funcionalidades de um sistema de facturação electrónica

Conformidade legal
O conteúdo das facturas, ou seja, os campos a incluir devem respeitar as exigências do CIVA. Também deve ser solicitado o certificado digital que conferirá idoneidade à assinatura digital. O arquivo das facturas deve ser por 10 anos, permitir o acesso à DGCI e garantir a conservação das facturas no formato original. É obrigatória a produção de listagens-resumo das facturas processadas de acordo com o CIVA.

Integração
A aplicação deve ser multi-organização e multi-departamental e permitir que os documentos transitem entre aplicações. É preciso não esquecer que a facturação é um módulo que tem de agir em consonância com a contabilidade, a gestão de stocks, a gestão de encomendas, a gestão de expediente, o ERP, o BPM e outros sistemas.
A adopção de normas e formatos aceites é fundamental para que o fluxo de dados e documentos seja viável.

Acesso completo
A preocupação com o acesso aos dados e documentos em qualquer momento e desde qualquer ponto da organização, desde que devidamente autorizado pelo sistema, deve ser outra linha de força do sistema.
Geralmente, o acesso faz-se a partir de um interface Web, na Intranet e/ou Internet, que também gere os acessos e os perfis de utilizador.
As principais funcionalidades a assegurar são:

  • consulta/ visualização de documentos: por vários critérios de pesquisa (tipo, sentido da mensagem (entrada/saída), estado; por vários critérios de ordenação dos resultados; em vários formatos (XML original, PDF)
  • recuperação exaustiva de documentos associados a uma dada transacção (factura e respectiva nota de encomenda, notas de créditos, correspondência, etc.)

Incorporação de workflow
Para o processamento automático ou semi-automático das facturas é essencial que o sistema possibilite o desenho de tarefas e funcionalidades, que controle os acessos e as comunicações entre os colaboradores.

Arquivo
Além de evitar os gastos relacionados com o espaço e a gestão do arquivo físico, o arquivo electrónico tem de ser seguro, garantir a integridade e consistência dos dados, relacionar e recuperar de forma transparente toda a informação relativa a uma transacção comercial e assegurar um acesso eficaz e simples, tanto para a empresa como para as autoridades fiscais na realização das auditorias e fiscalização.
Constitui uma vantagem centralizar o arquivo de todos os sistemas e aplicações, mas pode ocorrer que haja um repositório específico de facturas que comunica com outros arquivos.

Aprendizagem e utilização simples
Quanto mais simples e intuitivo for o sistema, mais rápida é a generalização dos seus benefícios para todos os actores.

O esquema abaixo representa sumariamente o funcionamento de um sistema de facturação electrónica, quer na modalidade inhouse quer na de outsourcing.

Aplicação da factura electrónica em todas as situações
Podemos considerar basicamente duas situações de aplicação. Uma entidade trabalha com muitos fornecedores, recebendo facturas que tem de introduzir no seu sistema e processar. É o caso extremo das empresas de distribuição como Jerónimo Martins, Modelo Continente, etc.
Na outra situação, são muitos os clientes de um mesmo fornecedor, como ocorre com a PT, a EDP.
Mas o que geralmente acontece, é uma empresa converter-se em cliente nuns casos e fornecedor noutros. A FNAC é cliente em relação às empresas a quem encomenda os seus produtos (relação B2B), mas é fornecedora em relação aos consumidores finais (relação B2C).
Como vimos anteriormente, no primeiro caso, o sistema de facturação explora bem a possibilidade de troca de dados e consequente integração nos sistemas de informação das empresas. Já no caso de particulares, essa possibilidade está inibida, porque em geral, o consumidor particular deseja tão somente um PDF da factura.

Facturação electrónica – Parte I

O processo da facturação sempre foi um sorvedouro de recursos nas empresas, além de representar uma questão sensível em termos legais. Actualmente, em Portugal, é obrigatório conservar as facturas por um período de 10 anos. Trata-se de um período demasiado lato, sobretudo quando o volume de transacções tende a aumentar.
Dada a abrangência do tema, proponho-me tratá-lo em duas entradas.
Na primeira, ocupa-nos a diferença entre a factura electrónica e a convencional, algumas características do quadro jurídico português e as vantagens comummente apresentadas para convencer empresários e organismos a automatizar o processo. Já na segunda fase, o objectivo será compreender as possibilidades técnicas e aspectos a ter em conta na implementação de um sistema automático de processamento de facturas.

O que é e o que não é factura electrónica

A factura é um documento essencial nas nossas economias, que relaciona um conjunto vasto de agentes (Administração tributária, empresas, consumidores, colaboradores dentro das empresas, prestadores de serviços de e-billing, etc.) e implica uma série de operações e controlos:

  • é fonte de receita pelos impostos retidos (retenção do IVA), tendo uma série de requisitos legais associados,
  • estabelece uma relação entre fornecedor e cliente, que se quer o mais transparente e clara possível, devendo conter dados como condições (para devolução…), data de expedição, informações pertinentes, formas de pagamento, data limite de pagamento, etc,
  • obriga a uma cadeia complexa de documentos e processos: encomenda (nota de encomenda)/ envio (guia de remessa)/ confirmação-recepção (dados de recepção, mensagem de aviso de recepção), verificação, liquidação, arquivo.

A factura electrónica é um documento em formato electrónico igual em tudo ao convencional, mas com o requisito especial de ter aposta a assinatura digital avançada, de acordo com a legislação portuguesa. Esta exigência obriga a que a assinatura digital esteja associada a um certificado digital que assegura o cumprimento de três princípios: a autenticidade da origem (foi o emissor X quem enviou a factura), a integridade do conteúdo (durante a comunicação não houve um elemento Z que alterasse a mensagem) e o não repúdio (o receptor Y não pode dizer que não recebeu).
Não é factura electrónica a mera digitalização de uma factura e a colocação da assinatura digitalizada. Nas transacções electrónicas, é fundamental uma terceira parte que garanta quem é quem.

Quadro legal

Portugal transpôs para o regime jurídico nacional as Directivas europeias a que estava obrigado, por isso as diferenças entre países no quadro da UE são quase nulas.
Seguem-se alguns aspectos trabalhados na série de documentos legais saídos, sobretudo nos últimos cinco anos, antecedidos ou em paralelo com a legislação de certificado e/ou assinatura digital.

Valor probatório das facturas electrónicas
Desde que cumpridos os requisitos específicos para a factura electrónica, ela tem a mesma validez legal que a factura convencional.

Processos reconhecidos para a facturação electrónica
A lei portuguesa prevê dois processos de facturação como garante do respeito pelos princípios da autenticidade, integridade e não repúdio.
Primeiro, mediante a aposição de uma assinatura electrónica avançada à factura ou outro documento na fase de comunicação em rede, na fase de tratamento, arquivo e preservação desses documentos.
Segundo, quando a comunicação se faz pelo processo do EDI (Electronic Data Interchange), via VAN ou Internet. Nestes casos, a assinatura electrónica não é exigida, mas há prestadores de serviços que a recomendam. No caso do EDI, é obrigatório um acordo escrito entre as partes que trocam os documentos. Esta solução é mais antiga e madura, mas tem o inconveniente de obrigar a uma infraestrutura não comportável para pequenas empresas. É frequente em empresas com um volume ingente de facturação e numa relação de empresa a empresa (B2B).

Modalidades possíveis na emissão e/ou tratamento das facturas
Estão contempladas na lei dois cenários: a emissão, o tratamento e o arquivo são realizados pela empresa ou organismo (solução inhouse); ou são subcontratados a uma entidade prestadora de serviços (solução outsourcing). Além das funções descritas, serve de terceira parte de confiança nas comunicações, assina digitalmente os documentos, gere a validade dos certificados digitais, serviço para o qual dispõe em geral de uma plataforma. Na situação de prestação de serviços por outros, é obrigatório contrato e co-responsabilização, mas o último responsável perante as autoridades é a empresa que contrata o serviço.
Existe ainda a possibilidade da autofacturação que se caracteriza pela emissão da factura por parte do cliente (em princípio uma empresa), quando o fornecedor não possui processo automatizado. Esta solução requer a aceitação explícita do fornecedor.

Notificação da Administração tributária sobre a adopção da facturação electrónica
Desde de 1 de Janeiro de 2006 foi dispensada a notificação, quando o arquivo e o prestador de serviços operam em território nacional. É, porém, obrigatória no caso do prestador de serviços não ser da UE ou o arquivo das facturas se encontrar noutro país da UE.

Pontapé de saída

O Estado português é “early adopter”
Com vista à adopção generalizada, o governo determinou que a partir de Janeiro de 2006 os organismos do Estado emitissem e recebessem preferencialmente facturas electrónicas. Além do impulso no mercado, esta medida traduz-se em melhorias nos aprovisionamentos e poupança no processamento. Recentemente na Suécia passou a ser obrigatória a e-facturação que estava em teste desde 2006 numa plataforma, agora operacional. No nosso país, existe o site compras.gov.pt em que os fornecedores podem anunciar ou seus produtos, mediante registo. No futuro, poderá funcionar como plataforma para facturação electrónica da Administração Pública.
O UMIC (Agência para a Sociedade do Conhecimento) foi o organismo designado para realizar o acompanhamento e a avaliação da facturação aplicada aos organismos públicos.

Preocupação com a normalização
O grande problema nas comunicações é a falta de normas e de estruturação dos dados que impede que as máquinas processem sem a intervenção humana, com pesados custos para as entidades.
A criação de esquemas universais e interoperáveis como a estrutura UN/EDIFACT ou XML evitam esse problema.
O UMIC criou um grupo de trabalho para estabelecer recomendações de normas a utilizar na facturação electrónica para a Administração Pública. Todavia, essas normas são passíveis de ser transferidas para o sector empresarial com grandes vantagens.
Um actor fundamental foi e é, na área da normalização, a GS1 Portugal Codipor (Associação Portuguesa de Identificação e Codificação de Produtos) que trabalha normas como a GS1 EANCOM e GS1 XML.
A lei nacional não obriga ao uso de um formato standard, mas a sua não utilização inviabiliza a integração de aplicações e o fluxo de dados.

Vantagens da adesão a um sistema de facturação electrónica

Os benefícios podem ser analisados ao nível da instituição (agilização dos processos, redução de custos, aumento da produtividade, mais segurança e fiabilidade, cumprimento de requisitos legais, investimento com retorno rápido), mas também ao nível nacional, com impactos significativos: incremento do comércio electrónico, combate à evasão fiscal e à economia informal, preservação do ambiente.

Vantagens da factura electrónica

Cuil, a guerra do tamanho? – Parte II

Vistos os objectivos e propostas do Cuil, debrucemos-nos agora sobre a sua prestação.

A difícil missão  de filtrar e apresentar informação relevante

Voltando ao tamanho…

Os responsáveis do Cuil afirmam ser importante o tamanho do índice e defendem que se incluam sites de pequena dimensão. Todavia, o que se verifica é que o tamanho pode ser contraproducente. Quanto maior for o índice, mais tempo leva a actualizar essa informação – o Google usa tempos diferentes para actualizar páginas de notícias, por exemplo. Outra consequência lógica é a maior lentidão na resposta e a maior dificuldade em filtrar, ou seja, separar o trigo do joio. Isto, apesar das possibilidades tecnológicas estarem em evolução.

Porém, existe mérito no trabalho realizado pela equipa. Com muito poucos recursos humanos e com menos computadores, recolheram um número muito elevado de páginas.

O novo look e a preocupação com a privacidade

Acerca da forma de apresentação dos resultados em colunas, há quem goste e há quem ache que dificulta a leitura, precisamente o contrário do argumento utilizado pelos criadores. O que me parece indiscutível e positivo é a novidade e o assumir o risco da mudança. A personalização do interface é também um aspecto que soma pontos, embora não seja inovador, porque outros motores já o fazem desde há muito.

Discutindo a relevância dos resultados

Nesta área parece haver consenso nas reações quanto ao fraco desempenho do Cuil. Existem vários testemunhos, mas tomámos o teste apresentado na Online Tech Tips que utilizou a expressão “shipping seven” que se refere à futura versão do Microsoft Windows. Analisou a pertinência dos dez primeiros resultados nos vários motores de pesquisa que foram: Cuil – 10%; Google – 100%; Yahoo – 50%; Live Search – 60%; Ask – 0%. Em dez resultados, Cuil apresentou apenas um relacionado com o tema pesquisado.

Eu mesma realizei um teste simplório com o Cuil e o Google. Digitei a expressão “mastersid”, que se refere a um master da Universidade de Salamanca. Cuil não recuperou nos dez resultados uma única página relevante. Google apresentou como primeiro resultado um trabalho de um aluno realizado nesse curso e, na terceira posição, a página oficial do dito master. Curiosamente, o sistema do Cuil recuperou, e apresentou na página 4 de resultados, uma série de entradas  do site Tagzania que possuíam a etiqueta “mastersid”. Foi um teste realizado pelos alunos desse master para experimentar as etiquetas e conhecer Tagzania. Devo dizer que o endereço do master é “http://mastersid.usal.es”, ficando claro que o sistema valorizou mais as etiquetas que os URL e recuperou, neste caso, o menos relevante.

A fórmula utilizada pelo Cuil necessita de muito trabalho para chegar à precisão actual do Google. Ao fraco desempenho na relevância, junta-se a ausência de pesquisa vertical, tendo sido o aspecto mais criticado a impossibilidade de este motor pesquisar especificamente imagens. Finalmente, a opção de não usar IP ou cookies para obter padrões de uso pode comprometer desenvolvimentos futuros.

O sucesso de um bom motor de pesquisa está associado à combinação de várias técnicas, e excluir à partida algumas possibilidades tecnológicas, não é muito sensato. A política de privacidade agrada à sociedade internauta, mas apenas a breve trecho, porque se a ferramenta não é eficaz, não vai ser utilizada.

Panorama actual e tendências que se desenham nos motores de pesquisa

Cuil tem muito para desenvolver e outra coisa não seria de esperar, porque estamos a falar de escalas muito diferentes, quando comparamos as duas empresas: Cuil tem 30 empregados contra os 20000 de Google; opera há 2 anos, tendo apresentado publicamente o seu produto há menos de dois meses. Ora, Google leva uma década de andanças.

Apesar de uma tecnologia poder alterar completamente as peças no tabuleiro de xadrez, não parece que isso vá ocorrer com Cuil, pelo menos no imediato. Google guarda bem o segredo do seu PageRank e tem procurado continuamente melhorá-lo e superá-lo com uma solução mais eficaz. É uma empresa com tecnologia muito madura, por enquanto líder, e que tem e usa todos os recursos para manter essa liderança com novos desenvolvimentos. Além disso, mantém-se muito atenta aos seus competidores… Seria até muito provável que uma qualquer melhora significativa conseguida por uma start up fosse imediatamente assimilada pelos grandes buscadores da actualidade – Google, Yahoo ou Live Search da Microsoft.

Creio que fica provado que o tamanho não é a questão de fundo, apesar do crescimento imparável da rede. O aumento do índice deve ser acompanhado de técnicas cada vez mais inteligentes no processamento de tanta informação. E nenhuma deve ser descartada.