Modelos de preservação para revistas electrónicas científicas

Na sequência do tratamento do tema do software para publicação de revistas científicas, quis abordar aqui a problemática da preservação, que deve fazer parte das preocupações da entidade que publica.

Preservação, neste contexto, significa a conservação a largo prazo do conteúdo intelectual e do aspecto do recurso, mas também a garantia do cumprimento das regras de acesso establecidas para esse documento. Um programa de preservação correcto deve garantir o acesso ao recurso para sempre, mas se o conteúdo estiver protegido por direitos de autor e restricções de outra natureza, isso deve ser assegurado, tal como no período “activo” do documento.

O conceito de “período activo” e “não activo” de um documento faz cada vez menos sentido na actual linha de desenvolvimento dos estudos e experiências na área de conservação. A visão australiana de tomar os recursos como “continuum” e não em fases ou ciclos (corrente mais convencional), obriga à tomada de consciência da importância de preservar e trabalhar nesse sentido desde o acto de criação do recurso. Assim, a preservação seria algo de intrínseco e presente em todo o proceso de gestão desse recurso.

Duas soluções radicalmente diferentes

No campo das revistas científicas, duas entidades avançaram com propostas que tomaram forma nos últimos tempos. Portico (Digital Preservation and Electronic Archiving Service) e Lockss.

Portico é a resultado da iniciativa de JSTOR que em 2002 procurava um modelo de preservação para a literatura científica viável. Actualmente, é uma entidade autónoma que recebe apoios da Biblioteca do Congresso, do JSTOR, do Ithaka e de Andrew W. Mellon Foundation.

A estratégia consiste na centralização do processo de preservação no Portico, retirando às bibliotecas e aos editores a tarefa de se ocuparem individualmente desse problema. Em contrapartida, é-lhes pedidoapoio financeiro e, no caso dos editores, autorização para que o Portico possa preservar e dar acesso permanente aos recursos, mesmo nos casos em que o editor desaparece, descontinua um título ou em que a biblioteca deixa de subscrever o serviço ao editor.

Tecnicamente, o processo resume-se à recepção do material original, à conversão para o formato de preservação e à migração, quando necessário. Existe uma cópia do arquivo do Portico na Biblioteca Nacional da Holanda. Os formato, esquema de metadados e modelo usados são: Journal Archiving and Interchange DTD, PREMIS, OAIS.

Aderiram ao projecto inúmeras universidades, sobretudo dos EUA, do Reino unido, da Austrália, da Itália e Grécia. Também muitos editores, compresença significativa das editoras académicas, mas também alguns editores profissionais como Elsevier, Springer, John Wiley & Sons.

Lockss é um projecto muito especial, a começar pelo logo. Trata-se de uma tartaruga e funciona como símbolo da “longevidade” que se deseja para os recursos electrónicos.

O motor tem sido a Universidade de Stanford, que deu o pontapé de saída em 2000, mas é actualmente apoiada pela Biblioteca do Congresso, pela Mellon Foundation, pela National Science Foundation, pela Sun Microsystems, HP Labs.

Os membros são também universidades e curiosamente alguns dos editores queabraçaram o projecto do portico: Elsevier e Springer, por exemplo. Isto prova que a preservação é um assunto muito sensível e que as entidades estão genuinamente interessadas em participar nas iniciativas que existam em curso.

Ao contrário do Portico, a filosofia do Lockss defende o modelo tradicional de preservação nas bibliotecas que funcionou muito bem durante séculos e séculos. No esquema proposto, cada entidade, biblioteca ou editor, deve participar no esforço conjunto de presrvação a largo prazo.

Em termos muito resumidos, a solução assenta na tecnologia disponível e no conceito de rede. São necessários computadores normais, crawlers usados na web, rede peer-to-peer, permissão dos editores para que seja possível efectuar a recolha sistemática, análise e correcção de errros, e, claro, os recursos originais.

O funcionamento é simples:

  • o trabalho é em parceria, o que significa que a monitorização dos recursos é repartida entre as entidades,
  • os recursos encontram-se replicados pela rede, pelo que quando ocorre um problema num recurso de uma entidade, ela tem a possibilidade de repor a autenticidade e integridade, valendo-se de outra entidade que não sofreu o dano,
  • o arquivo está distribuído, ou seja, o risco de que o arquivo seja todo destruído é impossível, o que já não é válido quando se tem um arquivo centralizado,
  • a garantia de que o sistema se auto-monitoriza e controla a qualidade está assegurada pela replicação dos recursos em diferentes peers, mas também pelas caches permanentes,
  • a migração é aplicada automaticamente, por isso um documento é sempre lido pelos navegadores sem problema,
  • além da monitorização dos títulos em preservação, é possível controlar os acessos e sinalizar novos títulos que devem passar ao programa de preservação,
  • elimina a necessidade de cópias de segurança em dispositivos móveis, porque a “cópia” está na rede,
  • facilita o acesso imediato ao recurso pedido, porque está disponível e não arquivado por uma entidade.

As grandes vantagens desta opção são: custo muito reduzido, quando comparado com os megaprojectos centralizados de preservação; recursos ao alcance de qualquer entidade (PC, rede peer-to-peer…); tecnologia inteiramente open source; implementação fácil e autonomia e quase auto-gestão do programa.

Fiquei muito impressionada com o Lockss e a transparência e simplicidade do projecto. Creio que merece a pena ser estudada esta opção, surpreendente pelo sentido de oportunidade e pelo excelente uso das redes peer-to-peer, que têm estado na mira dos meios de comunicação social pelas piores razões. Este caso só prova que as tecnologias são neutras e estão aí. Os usos que delas se fazem é que podem ser mais ou menos nobres.

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