Software para publicação de revistas científicas

A posição abusiva dos grandes grupos editoriais levou a comunidade académica a repensar o modelo de publicação dos artigos científicos. A concentração do mercado na mão de poucos, o aumento do número de títulos a adquirir, a pressão dos leitores e a redução dos orçamentos das bibliotecas concorreram para a tomada de consciência da insustentabilidade do modelo. Juntava-se a clara noção de que uma instituição investia a duplicar, porque pagava a investigação e, depois, os artigos resultantes dessa investigação.

Na senda da filosofia do Open Access Initiative, universidades, associações e investigadores enveredaram pela conhecida rota verde (criação de repositório da produção própria com imediata disponibilização, ou seja, os repositórios institucionais ou temáticos) e/ ou pela rota dourada (publicação das suas revistas).

Vantagens e desvantagens do Open Access na publicação

No campo da publicação das revistas científicas, é actualmente consensual que o modelo Open Access favorece mais os autores, fazendo com que sejam mais lidos, mais citados e que os seus trabalhos sejam publicados mais depressa. Mas também existem vantagens óbvias para as instituições: economia de recursos, controlo do copyright, mais visibilidade.

Outra vantagem está na rápida difusão por canais como os directórios de revistas científicas (DOAJ, Open J-Gate, LivRe), na possibilidade de ter os artigos indexados em bases de dados bibliográficas de renome (CSA ou PubMed Central). Além disso, há revistas de livre acesso que têm índice de impacto.

Porém, esta alternativa não está isenta de críticas. Há publicações que são consideradas “demasiado” híbridas quanto ao acesso, distanciando-se do ideal do livre acesso à informação. Este problema está intimamente relacionado com a dificuldade de financiamento a largo prazo de projectos de publicação, embora existam modelos bem sucedidos, caso do PLoS (Public Library of Science).

Um outro ponto sensível é a escolha do software, ou melhor, da plataforma de serviços e gestão para o processo de publicação.

Requisitos do software

A SPARC (Scholarly and Academic Resources Coalition) colocou no seu site uma lista de software para a publicação electrónica de revistas científicas. Uma análise cuidada permite concluir, positivamente, que há uma grande diversidade de entidades, desde universidades (Berkeley, Maryland, Michigan, Cornell…) a empresas e até a grupos editoriais (Thomson). Não obstante, as propostas não oferecem todas a mesma qualidade nem abrangência. Há sotware que não gere todo o ciclo de vida da publicação; há soluções que parecem ter sido descontinuadas, porque tiveram financiamento só para um período de tempo.

Os requisitos essenciais de um software para publicação são muito similares aos de qualquer software. Basicamente pretende-se que seja:

  • viável e tenha desenvolvimentos em perspectiva,
  • multiplataforma,
  • fácil de instalar e manter,
  • boa documentação e apoio da comunidade,
  • adaptável às necessidades da instituição ou consórcio,
  • modular, podendo ser acrescentadas novas funcionalidades, quando necessário
  • interoperável com outros sistemas (repositório institucional, sistema de ensino à distância, portal e/ou website)
  • cumpridor de normas internacionais, facilitando o import e export de dados e o arquivo a largo prazo
  • uso de tecnologia XML

Como dito anteriormente, um elemento decisivo na avaliação do software para publicação é a oferta da solução global. Isto é, o software deve contemplar todas as etapas e acompanhar a complexidade dos processos associados à actividade: envio/ recepção de artigos, revisão/ aprovação, edição/ publicação, integração do artigo no corpus existente, pesquisa/ recuperação, acesso/ entrega.

É importante que existam serviços de alerta/rss; controlo de versões e de acessos; ferramentas de comunicação entre os intervenientes; instrumentos de monitorização e estatísticas de uso (COUNTER, dados bibliométricos); meios de difusão e links a comunidades, índices, directórios, repositórios Open Access; apoio à investigação, pesquisa, estudo (URL persistentes, links entre referência e documento primário, pesquisa avançada e ao nível de artigo, compatibilidade com todos os gestores de referências – EndNote, RefWorks, Procite, Reference Manager); diversificação dos produtos (formatos HTML e PDF, acesso a texto e imagens em separado, impressão a pedido), etc.

Estamos a falar de uma série de serviços de valor acrescentado tanto para o gestor como para o editor, o revisor, o autor e o leitor.

Análise do mercado

De entre a lista de alternativas open source, destacam-se o muito conhecido OJS (Open Jornal Systems), o Topaz, utilizado pelo citado PLoS, e o DPubS (Digital Publishing System).

O OJS tem a seu favor o facto de ser um projecto antigo, data de 2001, e ser apoiado por entidades públicas, sendo mantido pelo PKP, Public Knowledge Project. Está traduzido em 15 línguas, mas estão na forja mais traduções. Atende a todas as etapas do ciclo e as publicações ficam indexadas à Google Scholar e à PubMed. Há quem advogue que satisfaz, mas que fica aquém do nivel da publicação profissional.

Em matéria de profissionalismo temos Topaz, a base para o PLoS, um caso de sucesso na área editorial de grande qualidade. Topaz tem como pontos fortes o uso das estruturas RDF e uma arquitectura voltada para o cliente (SOA). O facto de ser um projecto assumido por Fedora Commons dá-lhe grande visibilidade e garantia de desenvolvimentos de elevada qualidade. O grande problema é a instalação, nada amigável.

DPubS da Universidade de Cornell, a que se associou a Universidade Penn State, mostra ser um projecto muito consistente e bem estruturado. A arquitectura é modular, abrange todo o ciclo, é adaptável a cada caso, é compatível e interoperável com os repositórios Fedora e DSpace. O repositório ArXiv usa API de DPubS.

Outras soluções analisadas foram DiVA, uma iniciativa de um grupo de bibliotecas da Escandinávia. Está a funcionar, mas o estatuto da licença é pouco claro. E-Journal é resultado da comunidade DRUPAL, mas está muito verde. A versão é beta e cinge-se à publicação simples, sem workflow. Lodel é mantido por um grupo de voluntários, mas também só responde à publicação. HyperJournal é interessante por usar, tal como Topaz, as estruturas triples e defender a web semântica. Mas tem uma instalação complicada, só gere uma revista por cada instalação e não permite pesquisar em todo o texto. Finalmente, SOPS (Scix Open Publishing Services) desenvolvido pela universidad eslovena de Ljubljana está associado ao repositório Scix.

Apesar da grande responsabilidade associada à liderança de um projecto de publicação próprio, é importante não esquecer a longa tradição da publicação no meio académico – University Press. Cada universidade tem a sua marca e as suas publicações em papel. Também há quem entenda que as bibliotecas devem liderar esse processo e que a viabilidade de projectos desta natureza funciona melhor quando existe um grupo de entidades que se associam. Para chegar a bom porto, basta aproveitar as sinergias do grupo e apoiar-se numa solução tecnológica e economicamente adequada.

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